Não há mais rebeldes como em 1992.
terça-feira, janeiro 13, 2009
Não
há mais rebeldes como em 1992. Sim, claro que houve vários depois desse ano.
Claro que aconteceu um rio de posturas revolucionárias, eternas enquanto a
juventude e a moda do período ditavam as regras. Claro que houve tudo e tudo
aconteceu. Mas me deixo levar pelo meu egoísmo, pela minha vontade de ser
adorado, pelo meu rock star morto e frustrado no coração adolescente. Lembro
com paixão, lembro com loucura nos lábios, com saudades no olhar, com gosto de
vodka e refrigerante na boca, que nunca houve rebeldes como os de 1992.
Tínhamos
uma cidade inteira sem violência, onde percorríamos as ruas até as ultimas
horas da madrugada. Bebida forte, vinho de quinta categoria, nuvens que quase
nunca explodiam em chuva forte, praças mortas com bancos de cimento confortáveis.
Pertencíamos a toda uma vida sem dinheiro suficiente, uma vida sem carros para
nos levar de volta para casa. Éramos Hell´s Angels de bicicletas velhas, toca
fitas com headphone nos bolsos e muita musica com paredes ruidosas de sons
lisérgicos vindos de Manchestes, Liverpool e Londres. E não eram Beatles, não
eram Rolling Stones.
Era
Jesus and Mary Chains, Ride, Chapterhouse, My Bloody Valentine e tudo que
soasse frio, vazio, ruidoso e porque não, delicado. Musica ruidosa,
desagradável aos ouvidos, distorção ensurdecedora. Nossas canções favoritas era
uma fruta deliciosa com uma casca cheia de espinhos. E lavava nossas almas.
Aliviavam nossas dores adolescentes. E para acompanhar, havia além do álcool,
éter e clorofórmio. Clorofórmio era LSD suburbano para embalar canções de amor
barulhentas e lisérgicas. Canções como esse hino de rebeldia “shoegaze” que é “Kick the
tragedy”.
Quantas
vezes ouvi isso voltando para casa, literalmente encharcado de bebida,
pedalando de olhos fechados na minha velha bicicleta enferrujada? As paredes
sônicas me levando pelo ar sob bilhões de pontos de luz no espaço. Lua branca
de cidade industrial e poluída reinando no céu negro. E tendo como única
riqueza, fitas gravadas de um amigo que trazia as novidades de São Paulo!
Aos
14 anos, era desregrado, estranho, solitário, sem rumo... E tudo era possível.
Magicamente possível. E é disso que sinto mais falta...
Em 1992 eu provavelmente te diria: "Ouça
para sentir-se melhor quando o mundo te fode a alma."
Drop Nineteen -
Kick the tragedy
Uma pelúcia aos 30.
terça-feira, dezembro 23, 2008

Um bicho de pelúcia aos 30 não é lá uma coisa à ser anunciado aos quatro ventos. Não é legal comentar na roda de amigos, entre uma cerveja e outra. Não pega bem revelar isso no intervalo do cafezinho ou no inicio de uma reunião de trabalho. Imagina se ainda por cima, sabem que você anda dormindo abraçado, bem apertado, sentindo o cheiro do poliéster novo? Já não bastava dormir com uma siamês vesga e agora essa novidade, uma pelúcia?
Aos meus olhos isso não é vergonha. Vergonha mesmo é nunca saber quando usar uma crase, divisão com mais de dois algarismos e gostar de futebol.
A tríade da vergonha em minha vida.
Aos meus olhos isso não é vergonha. Vergonha mesmo é nunca saber quando usar uma crase, divisão com mais de dois algarismos e gostar de futebol.
A tríade da vergonha em minha vida.
Drops do dia: Menopausas, comida cara em pratos rasos e Woody Allen fazendo nas coxas.
terça-feira, dezembro 16, 2008
Sábia
e pitoresca, a natureza ordenou às até então mulheres primitivas das cavernas
que caso quisessem andar eretas e sob saltos gigantescos, uma única condição
seria necessária: na 3ª idade, a menopausa surgiria para evitar uma competição
reprodutiva entre as mais novas. Um “desperdício evolutivo”, dizem os
cientistas. Mas não concordo. Conheço uns japoneses
que vão contra esse padrão natural.
:::
Publicada
nos principais jornais desse domingo (14/12/2008), uma pertinente crônica da Danuza Leão falava sobre restaurantes chiques com
seus pratos parcos em quantidade, mas expansivos em seus preços. Ela sintetizou
exatamente o que a grande maioria deve pensar em relação a ser um apreciador de
uma boa culinária e que, no fundo, todos fingem achar normal tais preços. “Um
camarão sozinho num prato: fala sério. Mas os restaurateurs, além de estarem
fazendo muita gente de boba, devem estar bilionários, pois esse tipo de comida
é caro. Aliás, caríssimo”.
Não
largo meu cuzcuz com leite em pó por nada nesse mundo!
:::
Também
adorei outra crônica dominical, mas essa é do Veríssimo. Foi sobre Woody Allen
e seu mais recente filme, “Vicky Cristina Barcelona". Ele disse: “Dá para
imaginar o Woody Allen escrevendo o roteiro em cima da coxa, no quarto do
hotel, louco para voltar para casa. Há personagens que aparecem e desaparecem
sem função ou explicação, e o Woody Allen poderia ter nos poupado, e ao seu
currículo, o pai pintor do Javier Bardem, que não pinta mais porque há pouco
amor no mundo".
Lembro
que quando fui assistir, eu estava com uma dor de cabeça horrível, culpa do meu
vicio infeliz por café. Estava na “bruxa”, nem uma gota da droga na mente.
Achei que não tinha sacado algo, burrice devido a dor. Mas que nada, a parada
foi ruim mesmo! Até então eu tinha ficado calado, sem dizer a ninguém que achei
uma droga. Não ouso falar mal do Woody! Não mesmo! Deixo esse árduo trabalho para o Verissimo!
Internet Porn
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Útil
e excelente modo para apresentar propostas, teses, números e gráficos... E que
talvez aposente o velho PowerPoint!
Renovando de novo.
sábado, dezembro 13, 2008
Não ficou lá essas coisas, mas acho que está bom. Tenho uma "coolhunter" particular que vai dar o veredito final. Por enquanto, deixa estar como está...
Readymade - On Point and Red
quarta-feira, dezembro 10, 2008
" a chill falls inside
lamp decaying
light
view from
incomplete park
more windows than
stars
a layer concrete
to step isolate
the state of my
mind
bordered by power
lines
and the grid
underneath me"Foto do dia: Focinho gelado.
segunda-feira, dezembro 08, 2008

Enquanto reestruturo o blog, estudo para uma prova final de Planejamento em Comunicação e re-escrevo meu pré-projeto (o qual recebi míseros 2,0!), uma bela e inusitada foto da Jornalista e escritora Ana Carmen Foschini. Só para aliviar por segundos o dia quente e "trovejoso" que nos surpreendeu nesses "tempos de fim dos tempos"!
O flickr de Dona Carmen: http://www.flickr.com/photos/anacarmen/2532497093/
Amanhã, em meus headphones: Dntel - (this is) the dream of evan and chan
segunda-feira, dezembro 01, 2008

Você
gosta de ruídos eletrônicos que surgem de sonhos de estranhos?
Você gosta de viajar com sua mente através de
janelas de ônibus?
Você gosta de isolar-se do mundo por intermédio
de seus headphones potentes?
Você certamente vai gostar de Dntel.
Por isso,
"Ringing ringing ringing ringing ringing off...
Mallu Magalhães: o biscoito recheado do folk rock adolescente
Ontem (29/11/2008)fui ver Mallu Magalhães. Fui vê-la com toda aquela carga de menino sabido com longos anos de vivencia rock and roll, neste inicio de minha fase “balzaquiana” com anos de experiência no consumo voraz de literatura, cultura pop e musica. Em outros termos, eu fui assisti-la com quilos de preconceito nas costas. O motivo dessa pré-conceituação da garotinha fofinha que toca folk-rock é que aprendi com Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra. Logo, o que todo mundo diz que é bom (ainda mais influenciado por doses maciças de mtv, youtube e myspace), deve ser analisado ou descartado sem nenhum tipo de aprofundamento. Mas mesmo assim, resolvi dar uma chance a moça.
Foi engraçado, talvez até vergonhoso, mas lá estava eu na fila de ingressos que crescia na proporção que o Sol ia se pondo. Estava lado a lado com essa nova geração de adolescentes, criados por tv, vídeo-game e internet. Meus 30 anos roçavam com púberes meninas que davam os primeiros passos em sua vida de rebeldia de playground, fumando maços de Malboro ou cigarrinhos indianos perfumados. No fundo, eu me divertia. Imaginava que um dia, cada uma delas, estariam viciadas em coisas mais atraentes: viciadas em seus filhos, em seus amores confusos, em suas religiões pentecostais que bravejam o fim do mundo, viciadas em seus trabalhos de profissionais bem sucedidas e viciadas em alguma droga que substitua todos esses outros vícios com apenas uma aplicação intra venal ou um trago na fumaça que nasce do crepitar de uma pedrinha mágica.
Vergonhas a parte, garanti o meu ingresso. Cheguei no meio da apresentação da Matiz, banda que nada me despertou. Mas despertava o entusiasmo de umas 100 pessoas que cantavam algumas canções junto com a vocalista. Na quarta lata de cerveja, terminaram o seu set. Instrumentos desmontados em segundos para dar lugar a segunda atração da noite. Quem era mesmo? Uma tal de Silvia Macheti. Mas quem seria essa Silvia? Tinha lido um breve comentário em algum lugar. Era algo como uma perfomancer que teve aulas de canto, dança, teatro, circo, malabares e sei lá mais o que. Não me lembrava muito.
Eis que sobe ao palco uma moça com um vestido rosa, estilo Jackie "O" e com uma pomba enfeitando a cabeça. Magrinha, nariz acentuado e afilada. Parecia uma Amy Winehouse comportada. Mas apenas parecia. O que aconteceria depois dessas primeiras impressões, seria a minha primeira e grande surpresa da noite. Silvia trouxe além de sua voz poderosa, um humor corrosivo, inteligente e surreal. Esperta, foi se mostrando aos poucos, em pequenas e leves doses de loucura transgressora, para não chocar a garotada. Cantou suas canções com muito charme, transformou “Sweet shine o mine” do Guns and Roses em Bossa-Nova, Bossa-nova em hardcore, fez uma garota da platéia chupar o seu dedão do pé e acendeu um baseado enquanto rolava desvairadamente um bambolê em sua cintura fina. Silvia é muito mais rock do que qualquer grupo de tatuados com piercing e alargadores nas orelhas, com cara de mau empunhando guitarras-falos que só arrepiam garotas bobas. Muito mais arrepiante e verdadeira do que rapazes barbudos e de All Stars surrados cantando sobre perdas amorosas em ritmo desacelerado. Em resumo, Silvia bota para fuder de forma fantástica!
Foi engraçado, talvez até vergonhoso, mas lá estava eu na fila de ingressos que crescia na proporção que o Sol ia se pondo. Estava lado a lado com essa nova geração de adolescentes, criados por tv, vídeo-game e internet. Meus 30 anos roçavam com púberes meninas que davam os primeiros passos em sua vida de rebeldia de playground, fumando maços de Malboro ou cigarrinhos indianos perfumados. No fundo, eu me divertia. Imaginava que um dia, cada uma delas, estariam viciadas em coisas mais atraentes: viciadas em seus filhos, em seus amores confusos, em suas religiões pentecostais que bravejam o fim do mundo, viciadas em seus trabalhos de profissionais bem sucedidas e viciadas em alguma droga que substitua todos esses outros vícios com apenas uma aplicação intra venal ou um trago na fumaça que nasce do crepitar de uma pedrinha mágica.
Vergonhas a parte, garanti o meu ingresso. Cheguei no meio da apresentação da Matiz, banda que nada me despertou. Mas despertava o entusiasmo de umas 100 pessoas que cantavam algumas canções junto com a vocalista. Na quarta lata de cerveja, terminaram o seu set. Instrumentos desmontados em segundos para dar lugar a segunda atração da noite. Quem era mesmo? Uma tal de Silvia Macheti. Mas quem seria essa Silvia? Tinha lido um breve comentário em algum lugar. Era algo como uma perfomancer que teve aulas de canto, dança, teatro, circo, malabares e sei lá mais o que. Não me lembrava muito.
Eis que sobe ao palco uma moça com um vestido rosa, estilo Jackie "O" e com uma pomba enfeitando a cabeça. Magrinha, nariz acentuado e afilada. Parecia uma Amy Winehouse comportada. Mas apenas parecia. O que aconteceria depois dessas primeiras impressões, seria a minha primeira e grande surpresa da noite. Silvia trouxe além de sua voz poderosa, um humor corrosivo, inteligente e surreal. Esperta, foi se mostrando aos poucos, em pequenas e leves doses de loucura transgressora, para não chocar a garotada. Cantou suas canções com muito charme, transformou “Sweet shine o mine” do Guns and Roses em Bossa-Nova, Bossa-nova em hardcore, fez uma garota da platéia chupar o seu dedão do pé e acendeu um baseado enquanto rolava desvairadamente um bambolê em sua cintura fina. Silvia é muito mais rock do que qualquer grupo de tatuados com piercing e alargadores nas orelhas, com cara de mau empunhando guitarras-falos que só arrepiam garotas bobas. Muito mais arrepiante e verdadeira do que rapazes barbudos e de All Stars surrados cantando sobre perdas amorosas em ritmo desacelerado. Em resumo, Silvia bota para fuder de forma fantástica!
Agora vamos a Mallu.
Sabendo que a menina estava prestes a iniciar seu show, o público se aglomerava na frente do palco. Meninas com o mesmíssimo visual de Mallu surgiam aos montes. Algumas com coletes pretos sobre camisas brancas e boinas na cabeça. Algumas com franjas para o lado e óculos de grau gigantescos. Outras, filhas bastardas da cultura de massa, vestiam calças justas verde-cana e camisas em silk screen do cult “Laranja Mecânica”. Novas gerações, novos filmes de culto. A menos de quatro anos, toda menina baiana indie queria viver coisas simples, sentir o sol da manhã, sentir feijões na mão e ser Amelie Poulin. E agora, o que elas querem ser? Desejam ultra-violencia? Anarquia desenfreada? Delinqüência burguesa? Tomar leite e estuprar garotas? Só deus (ou o diabo) sabe!
Havia também meninos brancos, com feições blasé e roupas de grife. Escreviam em cartas de baralho, recados para a cantora. Uma imagem enigmática para minha mente. Por que baralhos? Qual a seria a estranha ligação? Mallu curte poker? Ou seria a facilidade de jogar seus desejos e declarações de forma mais eficaz à sua heroína? O que acredito é a mesma coisa que o Cazuza também acreditava: querendo ser ingleses, nós, caboclos, seguimos estilos e formas de ser baseados naqueles que nos colonizam. E a colonização agora é cultural.
Então, ela sobe ao palco. Rápida como um ratinho, ela se movimenta como um garoto desengonçado. Mas, meu deus, choque para os garotinhos com cartas de baralho na mão! Eles abrem a boca, sorriso metálico á mostra: Mallu usa o clássico vestidinho de fitas do senhor do Bomfim. Paninho simples, baratinho. Vejo balões de pensamentos na cabeça dos moleques: “Pô, por que ela não veio de nerd-folk?” Ela nada diz e vai logo tocando seu banjo. Publico quieto, calado. A multidão se aglomera ainda mais e apenas observa. Milhares de olhos como zumbis sem alma, apenas olhando, apenas degustando Mallu.
É isso. Um insigh cai sobre minha cabeça. Todos querem degustar Mallu! Todos querem entender o porque do fascínio. Todos querem saborear seu jeito infantil, ingênuo(?), que interpreta canções de velhos encrenqueiros de country e folk music. Dentro de Mallu há resquícios de boa musica, de canção pop perfeita, “cantarolável”, “assoviável”, inesquecível. É como um biscoito recheado. Dentro de Mallu há a voz de garotinha esperta, restos de Bob Dylan, Johnny Cash, Beatles. Por isso todos apenas olham atentamente, devorando-a, sentindo o gosto, o prazer de tudo do que há embutido dentro de seu magro corpo, dentro de sua mente adolescente que só diz bobagens. Meninos, meninas, senhoras e senhores. Todos zumbis, devorando Mallu e suas musicas simples.
Claro que acho nojento tudo isso. Claro que não vejo nela nenhuma espécie de salvação da musica nem nada que o valha. Claro que para meus olhos ela é só uma boa artista, com uma voz afinada. Ela sabe fazer canções pop legais, isso é fato. Mas o nojento em Mallu é o hype em torno dela. O nojento em Mallu é justamente o frisson que é feito em torno de algo que poderia fluir muito mais leve e sincero se não fossem as pessoas. As mesmas pessoas que a imitam na forma de vestir, as mesmas pessoas que quebraram a cara quando ela chamou o Olodum ao palco. Nunca imaginei que um banjo combinaria tão perfeitamente com samba-reggae!
Fim da festa, hora de voltar para casa. Garotos com olhar blasé e gangs de meninas de calça verde-cana voltam para seus universos de rebeldia vigiada em playgrounds e shopping centers. Em seus Ipods, Mallu Magalhães irá tocar por um bom tempo. Do meu lado, andei um pouco pelo Pelourinho, bebi duas cervejas em algum beco sujo, observei gatos perderem a elegância comendo restos de lixo de comida amontoado num canto da rua. Observei seres humanos perderem sua dignidade comendo do mesmo lixo de restos de comida que os gatos vadios se fartavam.
Mas como diz Mallu, “Behind the sad I showed her the life is really fun” (Atrás do triste, eu mostrei para ela que a vida é realmente engraçada..)
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