Em algum lugar de Bruxelas, na Bélgica, um muro anuncia: “A noite dorme”.
“O que de surpreendente fiz aos 21 anos”? Ou a pergunta mais sensata seria “é realmente preciso fazer algo de surpreendente aos 21”? Questões desse tipo me tomam a mente quando vejo um trabalho prodigioso, de jovens que parecem expelir pelos poros uma produção artística ou profissional de excelente qualidade. Não invejo os prodígios, mas que eles me fazem sentir como uma lesma sem imaginação, isso eles conseguem.
Não sei se esse é o problema de consumir culturas em demasia (percebam o plural para mostrar que não faço separações nesse quesito, ok?), saber das últimas tendências, estar bem informado e “antenado” (argh!) com tudo. O fato é que, particularmente, não consigo limitar-me a apenas ver os outros produzirem conhecimento ou inovações de cair o queixo. Também queria fazer parte desta elite juvenil, contribuindo com algo surpreendente para o mundo.
Só que o tempo passa, rugas dizem “olá”, e os olhos não brilham como 10 anos atrás. Então, você lembra de que nem tudo acontece como imaginamos, ou que lampejos de genialidade não caem como a chuva. E há uma infinidade de fatores que não podemos controlar: o lugar onde se cresce, o incentivo das pessoas ao seu redor, a fagulha divina (?) que inspira a bons destinos.
Deus do céu, quando lembro que aos 21, estava dentro de uma indústria ruidosa sujando as mãos de graxa, suando como porco sujo e dilacerando os nervos do punho em esforços repetitivos, ficando por anos nessa situação para ajudar em casa, pagar estudos, comprar uns livros de bolsos baratos na banca, enfim, sobreviver, me perdoo. Eu não tinha obrigação nenhuma em ser genial.
É difícil encarar isso de frente. Olhar finalmente no espelho, admitindo que seu poder criativo não é tão significante para o mundo, mas corajoso o suficiente para aceitar-se uma pessoa comum, de talentos comuns, com anseios comuns.
Orgulho-me de ser versado em bobagens que fazem rir, em saber cutucar corretamente um formigueiro de saúvas, plantar abacateiros, matar pulgas de cachorro com uma lupa em dias de muito sol, ou preparar um prato de cuscuz com leite e achocolatado em pó, talvez meu maior talento, algo que me faz único no universo.
Pode ser pouco para você, mais muito rico para mim.
* As incríveis fotografias surreais, mágicas e outonais que ilustram esse post, é do americano Kyle Thompson. Ele é um artista autodidata, sem nenhum treinamento formal, que começou sua carreira aos 19. Hoje, ele tem apenas 21 anos.
Sabe algo muito difícil de fazer, por mais simples que seja, e que, ainda por cima, pode te render uns bons trocados para sair em uma sexta-feira a noite e torrar com o que bem entender?
Pensar de forma improvável.
Pessoas como o holandês Jochem van Wetten podem te ajudar a tirar a tampa que fecha a sua mente.
Urban Forms Gallery,
Lodz, Poland
2012
Ao longe, ouço sussurros fantasmagóricos de um ronco de turbinas de algum avião de destino incerto. Na rua, uma moto passa como uma vespa mecânica gigante. Há também a vibração do metrô, rei de aço dos subterrâneos. No meio dessa pequena orquestra cacofônica, no escuro do quarto, meus ouvidos captam tudo, pintando sonhos espantosos, surpreendentes, medonhos. Coisas com fios de alta tensão e voos corpóreos impossíveis pelo centro da cidade.
É chegada a hora de cochilar sob o vai e vem de um rabo feliz. E quem não aproveitar, além de ser mulher do padre, vai ser um workaholic chato fazendo pose de competente.
(clique na imagem para ampliar)
...da opinião alheia, dos olhares inquisidores, dos pagamentos a serem feitos.
Espere chegar o momento (seja ele bom ou ruim), em seguida enfrente-o e depois esqueça-o.
Ah, um último conselho: sente-se como quiser! ;-D
Foto: "Waiting For", de Kris Josef, Toronto, Canadá.
Essa vai para Aisha, que mesmo sendo uma anciã felpuda e “acamada”, tem me ensinado todos os dias a ver a vida de modo calmo e sonolento.
Se está feliz, olhe. Se está triste, pule.
Não é uma frase inteligentemente escrita para a hora e o lugar certo? E, apesar do humor negro, não há uma verdade sobre a vida escondida na brincadeira?
... descansar as ideias e dar um passeio com seu tamanduá de estimação. Porque hoje é o melhor momento para se perder a razão!
Na foto, o genial Salvador Dali.
Não estamos naquele futuro imaginado nos filmes B das décadas de 50/60. Estamos em uma mistura volátil de referências infinitas, que de tão confusas e perdidas, ainda não há denominação para o período.
No campo da arte, parece que tudo esta ficando cada vez mais tátil, próximo ao cotidiano. Talvez seja aquela sensação esquisita, em que o real ultrapassou a ficção em termos de chocar o cérebro.
Partindo desse pensamento, as ilustrações de Rory Kurtz são o exemplo visual desse momento. Apesar de algumas terem a velha pitada do devaneio, do mundo onírico e da extravagância surrealista, permanece a verdade cotidiana repleta de símbolos urbanos, com suas “coisas” de usar, seus temores e seus vícios.
Conexão lenta, sinônimo de irritação e violência gratuita. Pausa forçada. Mas nada de preocupação, hoje é sexta e está quente. E o dia merece morrer afogado em cerveja gelada e conversa sem propósito.